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Willian von Söhsten
Ribeirão Preto perdeu há poucos meses um respeitado profissional da fotografia,
Miyuky Miyasaka,
o Tony Miyasaka;
falecido em 30 de maio, em decorrência de uma infecção intestinal. O
sepultamento aconteceu no cemitério Bom Pastor, com homenagem na igreja
Estigmatinus.
Tony viveu mais de 50 anos dedicados à fotografia. Tinha 72 anos de idade e era
nascido em Osaka, no Japão. “Ele era importado”, lembra com ternura a esposa,
Tereza Miyasaka.
Chegou ao Brasil com 2 anos de idade e foi morar em Pradópolis com a família.
Lá, foi picado por uma cobra na “Usina São Martinho”. O fato deixou o pai de
Tony com medo tal, que resolveu mudar-se para Ribeirão Preto, livrando Tony do
destino de trabalhar na terra.
A esposa define o marido, conhecido por sua bondade, como “uma pessoa sem
egoísmo”. Tony era uma figura vista em numerosos eventos da cidade, desde
casamentos a eventos políticos.
Além de fotógrafo, trabalhou na TV Tupi e conquistou uma cadeira na Academia de
Letras e Artes de Ribeirão Preto (ALARP).
O casal de amigos Douglas e Ivete define a pessoa de Tony Miyasaka: “Tony
pensava que conhecimento é uma coisa que se dá e nunca se perde. Pelo contrário,
só se ganha com a experiência de ensinar”.
“Convivi muito com ele. Foi um grande professor e amigo, pai de todos os
fotógrafos de Ribeirão Preto. A bondade dele era grandiosa e suas aulas formaram
grandes profissionais”, ressalta o fotógrafo Paulo Marques.
Companheiro de Tony no “Cine Foto Clube”, Breno Paiva também lembra da paixão
pelas fotos. “Além de apaixonado era um grande incentivador dos amantes da
fotografia. Era o curador do ‘Cine Foto Clube’ e fazia questão de premiar os
alunos dos cursos de fotografia”.
“Foi um grande mestre e um grande pai. Ele fotografou minha primeira comunhão e
me ensinou a revelar e ampliar filmes preto e branco”, lembra Fernando Calzzani,
também fotógrafo.
Pelas mãos de Tony passaram alguns dos maiores fotógrafos da cidade. “Ele formou
algo em torno de cinco a seis mil fotógrafos amadores e profissionais. Apoiava
tudo o que tinha relação com fotografia. Sua bondade era tanta que emprestava
equipamento, fazia o serviço para cobrar depois e com isso levou muitos
‘canos’”, lembra Breno Paiva.
Douglas e Ivete destacam ainda: “ele realizou o sonho de qualquer pai e deixou
um herdeiro a altura. Toninho (filho de Tony) foi preparado pelo pai para ser
seu grande sucessor. Ele gostava da gente de um jeito muito bonito”. Douglas
conheceu Tony em 1972. “Muita gente não sabe, mas ele dava aulas de fotografia
para crianças carentes”, revela.
“A ida de Tony deixa um grande buraco em Ribeirão Preto”, afirma Paulo Marques.
“Trabalhar no Miyasaka foi uma experiência marcante em minha vida. Com ele pude
aprender muitas coisas. Ele me ajudou muito no meu início de carreira, dando
dicas, sugestões, críticas. O senhor Tony para mim sempre foi e será um grande
mestre, uma pessoa fantástica. Ribeirão perdeu um ícone, profissional ímpar,
pessoa querida por todos. Atencioso, educado, disposto a ajudar seja quem fosse.
A imagem que fica é de um homem que depositou sua vida numa paixão, a
fotografia”, conclui o amigo e ex-funcionário, Rubens Okamoto.
Tony começou a fotografar em 1950. Em 1957 conheceu Tereza Keiko Murakawa,
durante uma cerimônia de casamento arrumado. Na época um senhor chamado Funayama,
amigo do pai de Tony, arrumou casamento para um rapaz da região com uma moça
amiga de Tereza desde a infância. “Eu estava no casamento e esse senhor falou
para o pai do Tony, ‘se deixar por conta dele, ele nunca vai casar’; fomos
apresentados e namoramos por dois anos. O casamento saiu em 1959”, conta Tereza.
Com Tony, Tereza teve cinco filhos, além dos cinco netos nascidos, e o sexto
neto a caminho. O filho mais velho, Toninho, é quem cuida dos negócios agora, e
quem sempre ajudou o pai no trabalho. “Em 1960 nasceu Toninho. Aliás, ele já
nasceu com a máquina de fotografar na mão”, brinca a mãe.
Tony sempre foi inquieto e gostava de trabalhar, garante a família. “Quando a
gente nasceu ele já estava com a corda toda”, diz a filha Elza.
A fotografia foi transmitida de pai para filho e de avô para neto. “Ele ensinava
a gente a fotografar. Meu primo já chegou a revelar fotos no laboratório”,
ressalta o neto, Felipe Neves Miyasaka.
Tony era apaixonado pela aviação. “Ele dizia que na próxima vida queria ser
piloto”, lembra a esposa.
Uma das poucas atividades que Tony Miyasaka ainda fazia como fotógrafo
profissional eram fotos aéreas. “Ele adorava voar”, lembra o amigo Ângelo
Mestriner. Tereza Miyasaka recorda a época em que o marido voava de “teco-teco”.
“Ele pedia para arrancar as portas do avião para tirar fotos e os pilotos
ficavam com tanto medo de ele cair, que seguravam na calça dele, enquanto ele
tirava fotos”, ela se diverte enquanto relembra.
Mas Tony não se contentava apenas com as aventuras no ar. “Quando a gente era
criança ele tinha um Impala e corríamos na rua Américo Brasiliense, onde é o
Correio hoje. Ele saía da Américo fazendo uma curva de ‘cavalinho-de-pau’ e
entrava na São Sebastião, dando outro ‘cavalinho-de-pau’, e imbicava na garagem
com tudo”, conta Elza.
Essa história até rendeu fama de playboy para Tony. “Um senhor ia todo dia em
casa, quando a gente morava na Monsenhor Siqueira, e dizia que em Ribeirão havia
três playboys que viviam correndo com o carro para cima e para baixo. Um deles
era o Tony”, diz Tereza em meio a risadas. “Ele era muito rígido com horários.
Quando a gente namorava e ele precisava ir a algum lugar, eu tinha que ficar
pronta muito tempo antes, senão ele me deixava e ia sozinho”, lembra ela.
Engana-se quem acha que isso tudo fez parte apenas da juventude do japonês. “Há
cerca de três meses, antes de falecer, no carnaval, o vô (Tony) deu um
‘cavalinho-de-pau’ só porque eu falei que ele estava ‘voando baixo’”, conta o
neto Felipe.
Pilotos gostavam de voar com Tony porque ele era aventureiro. “Ele pedia para
fazer looping, dar rasante, e muito mais”, diz Elza. “Num evento de tênis em
Ribeirão Preto ele estava voando em um ultraleve com um rapaz. Quando estavam
sobrevoando o local do evento, Tony pediu para o piloto dar um rasante. Passaram
tão perto da arquibancada que o piloto perdeu a licença para pilotar por dois
anos”, lembra Ângelo Mestriner.
A irreverência de Miyasaka era tal que nem os cavalos ele perdoava. “Nas
fazendas têm alguns cavalos treinados para andar em trote, porque o trabalho no
campo exige isso. Meu pai montava os cavalos e corria muito com eles, só para
destreinar os bichinhos e deixar os fazendeiros loucos”, conta Elza.
“Ele era uma pessoa muito alegre e muito boa. Tinha vontade de ensinar tudo o
que sabia. Ele não era egoísta em nada”, conclui a esposa. |